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Coluna Startup Piauí

Editorial Startup Piauí: a gente realmente se importa

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O Startup Piauí completou em 2025 581 projetos no portfólio. Cerca de 60% são de Teresina. 83 deles de educação, 74 de saúde e 55 de Tecnologia da informação. Mas o dado mais importante é que ele tem também 14 Josés e 14 Franciscos como coordenadores de projetos que fazem parte de uma comunidade de quase 1800 pessoas. E por que estes números importam? Porque talvez estejamos vendo a mudança de uma estatística danosa para qualquer local. A perda dos talentos.

Por décadas, o Piauí assistiu seus melhores cérebros partirem. Entre 1986 e 1991, perdemos 134.479 piauienses para outros estados. No período de 1995 a 2000, outras 123.512 pessoas deixaram nossa terra em busca de oportunidades que aqui não encontravam (ALVES; QUEIROZ, 2011).

 

O destino era sempre o mesmo: 46% dos piauienses qualificados que emigraram entre 1999 e 2004 foram para São Paulo, atraídos pela promessa de empregos que nosso estado não conseguia oferecer (ALVES; QUEIROZ, 2011). Mas o Distrito Federal também se consolidou como um polo magnético, e entre 2005 e 2010, São Paulo, DF e Maranhão eram os principais destinos de nossa fuga de cérebros, representando um saldo negativo de 2.732 migrantes qualificados (SOUSA; FREITAS; SOUZA, 2022).

Não são apenas números. São engenheiros, médicos, professores, programadores. São filhos que não voltam para o Natal. São projetos que nunca nasceram. É uma geração que aprendeu que sonhar grande significava partir. Talvez, não mais.

 

Essa mudança de rota não acontece por acaso, e nem por decreto. Ela acontece porque foi decidido pelo Governo do Estado encarar o desenvolvimento do nosso estado sob uma nova ótica.

O Startup Piauí não nasceu para ser apenas uma "aceleradora de empresas" nos moldes que vemos no Vale do Silício ou na Faria Lima. Ele foi desenhado para ser uma ferramenta de resistência e de transformação da nossa pauta econômica e, principalmente, da cultura empreendedora local.

Historicamente, se ficava refém de ciclos econômicos que não controlávamos. Em época de baixa, quando os investimentos minguavam para locais mais tradicionais, a economia estagnava e a única saída para o engenheiro recém-formado ou para o desenvolvedor inquieto era o aeroporto. Outros estados do Nordeste, como Ceará, Bahia ou Pernambuco, perceberam antes de nós que a diversificação da economia é a única âncora capaz de segurar talentos. Eles investiram na indústria, no turismo, no serviço especializado.

Nós, agora, ao desenvolver um programa de inovação tecnológica com base em startups, estamos investindo na matéria-prima mais valiosa que temos: a inteligência da nossa gente.

É aqui que entra nossa grande diferença, aquilo que os relatórios frios de gestão muitas vezes não capturam. A diferença é que na Startup Piauí a gente realmente se importa.

 

Pode até parecer piegas falar de "cuidado" no mundo corporativo, onde métricas de valuation e escalabilidade costumam ditar as regras. Mas no Piauí, o jogo é outro.

Nós não olhamos para as 62 empresas que já faturam no nosso portfólio como meras estatísticas de sucesso para preencher um slide de apresentação. Nós olhamos e vemos famílias que não precisaram se separar. Nós vemos pessoas de fora que estão realmente pensando em se mudar para o Estado.

Esse por exemplo é o caso da Presto. É uma empresa de fora, subsidiária de uma outra empresa de tecnologia. Ela poderia ter se instalado em qualquer lugar do Brasil. Escolheram o Piauí. E não só escolheram, como contrataram 7 piauienses. São sete talentos, jovens, frequentemente no primeiro emprego, que ganham salários acima da média local e que não viraram estatística de evasão.

Sete profissionais que estão construindo carreiras de alto nível sem precisar trocar o calor de Teresina e Parnaíba pela garoa fria de São Paulo. Isso é desenvolvimento econômico na veia que faz a diferença na vida das pessoas.

E quando olhamos para dentro, para os nossos "chegados", o orgulho é ainda maior. Temos startups rompendo barreiras que pareciam impossíveis anos atrás. A empresa que mais fatura no programa está prestes a quebrar a marca histórica dos seus primeiros 10 milhões de reais anuais. Isso não é dinheiro especulativo; é riqueza real sendo gerada, circulando no nosso estado, pagando fornecedores locais, gerando impostos localmente e, acima de tudo, inspirando o próximo garoto ou garota da universidade a pensar: "Dá para fazer aqui". Está de escritório novo no centro da cidade, ocupando um andar inteiro e só contratando gente.

 

O Startup Piauí funciona como esse articulador do ecossistema. Nós conectamos a academia ao mercado, o investidor ao sonhador, a vocação regional à tecnologia global. Não estamos tentando transformar o Piauí no que ele não é. Estamos potencializando o que ele tem de melhor.

Quando dizemos que temos por exemplo 83 projetos de educação e 74 de saúde, estamos falando de piauienses resolvendo dores reais da nossa população. E também provamos que código de programação não tem sotaque, mas tem origem. E essa origem pode ser piauiense.

E o mais bonito disso tudo é a "cara" desse movimento. Ele tem a cara do Piauí real. Ter 14 Josés e 14 Franciscos como coordenadores não é um detalhe curioso; é a prova de que a inovação aqui é democrática. E nunca nos esquecemos de Nathálias, Alexias, Otílios, Sérgios...  Ela chega em quem tem vontade de fazer acontecer, independente do sobrenome.

 

Nossa missão vai além de mentorias técnicas ou a busca de fontes de financiamento — embora a gente faça isso muito bem. Nossa missão é criar um ambiente onde o empreendedor saiba que não está sozinho. Nós nos importamos com o boleto que vence na sexta-feira, com a dificuldade de contratar, com a estratégia que precisa ser pivotada. A gente se importa com o resultado porque entendemos que cada CNPJ que prospera é um CPF que fica.

Nós queremos e estamos construindo um Piauí onde a diversificação econômica não é apenas um termo bonito em um plano de governo, mas a realidade de quem pode escolher trabalhar com agronegócio, com software, com biotecnologia ou com economia criativa. Um estado que deixa de ser um "celeiro de mão de obra" para ser um campo fértil de inovação.

Nossa comunidade de cerca de 1.800 empreendedores que não é apenas um grupo de relacionamento. É uma rede de apoio para gente atrevida que decidiu teimar, desfiar e ficar. Para quem decidiu que o futuro não é um lugar para onde se vai, mas um lugar que se constrói onde os pés estão fincados.

A gente se importa. E porque a gente se importa, o Piauí fica.


Referências:

  • ALVES, M. O.; QUEIROZ, S. N. Mudanças recentes na migração interna no Nordeste: uma análise a partir de dados censitários e PNADs. Revista Econômica do Nordeste, v. 42, n. 2, p. 311-330, 2011.
  • SOUSA, C. G.; FREITAS, C. G.; SOUZA, R. G. Fuga de cérebros: uma breve análise sobre a perda e o ganho de migrantes qualificados do Estado do Piauí - Brasil. Revista GeoNordeste, Ano XXVIII, n. 1, p. 26-44, 2022.

 

Por Heygler de Paula - Gestor de Aceleração e Desenvolvimento de Negócios da Startup Piauí

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Fonte: Heygler de Paula - Gestor de Aceleração e Desenvolvimento de Negócios da Startup Piauí

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