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Transferência de Tecnologia

Piauí sobe em ranking de inovação, mas tem dificuldade de transformar ciência em negócios rentáveis

Estado avança em patentes e registros de software, mas contratos de transferência de tecnologia seguem escassos; especialistas apontam caminhos

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Piauí precisa transformar conhecimento gerado nas universidades em negócios (Foto: Pavel Danilyuk)

 Piauí precisa transformar conhecimento gerado nas universidades em negócios (Foto: Pavel Danilyuk)

 
 

O Piauí tem avançado na área de inovação, mas ainda enfrenta um grande desafio: transformar conhecimento gerado nas universidades em negócios que gerem renda, empregos e crescimento econômico. Apesar da evolução em indicadores nacionais, especialistas apontam que o estado ainda está distante de converter pesquisa em produtos e serviços que cheguem, de fato, às mãos de quem precisa, seja um remédio mais barato, uma técnica para melhorar a produção de leite ou um aplicativo que resolva um problema cotidiano.

Na Universidade Federal do Piauí (Ufpi) o número de patentes depositadas saltou de 21 em 2023 para 33 em 2024. A instituição também acumula 187 registros de software e 139 patentes. Mas os contratos de transferência de tecnologia, o mecanismo que leva uma invenção do papel para o mercado, ainda são raros. O tema foi foco de um debate online “O Piauí no Dia Mundial da Propriedade Intelectual”, realizado em 28 de abril de 2026 pela UFPI.

 

Para entender melhor: uma patente é como uma receita exclusiva, protegida por lei, que impede que outros copiem uma invenção. Já a transferência de tecnologia é o ato de vender ou ceder o direito de usar essa receita para uma empresa, que vai transformá-la em algo tangível, como um equipamento, um medicamento ou um software. Sem essa ponte, a inovação fica trancada dentro da universidade.

 

Imagem gerada por IA

 

O diagnóstico do Índice Brasil de Inovação e Desenvolvimento (IBID) 2025, divulgado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) mostra que o Piauí ocupa a 18ª posição entre os 27 estados, mesma colocação do ano anterior. Em patentes, o estado aparece com 80 depósitos em 2025, muito abaixo da Bahia, Ceará e Paraíba. Em desenhos industriais, foram apenas cinco. Em marcas, também fica entre os menores do Nordeste.

“A maior parte dos pedidos de patente no Brasil ainda vem de depositantes estrangeiros. Internamente, universidades e governos depositam mais do que a indústria”, explicou Viviane Gomes, chefe da seção de difusão regional do INPI na Bahia. “O objetivo é que a propriedade intelectual entregue também uma melhor qualidade de vida para as pessoas, principalmente para as que mais necessitam.”

Viviane Gomes, chefe da seção de difusão regional do INPI na Bahia

 

O pró-reitor de pesquisa e inovação da Ufpi, Rodrigo Veras, reforçou a importância de unir esforços. “Se a gente não proteger os nossos ativos, a gente pode estar fadado a fracassos. Por isso é tão importante debater a propriedade intelectual cada vez mais”, afirmou na abertura do evento.

Rodrigo Veras, pró-reitor de pesquisa e inovação da UFPI

 

Segundo Anderson Soares, gestor de projetos da Fundação Cultural e de Fomento à Pesquisa, Ensino, Extensão e Inovação (Fadex), enquanto os depósitos de patentes no Brasil cresceram 6,7% entre 2024 e 2025, os contratos de transferência de tecnologia caíram 6% no mesmo período. “É um sinal de que estamos protegendo mais ativos, mas conseguindo menos inovação de fato”, completou. Esse fenômeno é particularmente cruel em regiões como o Nordeste, onde o tecido industrial é menos denso.

Anderson Soares, gestor de projetos da Fadex

 

Uma saída apontada pelos especialistas é a criação de políticas públicas que estimulem a aproximação entre universidades e empresas. O próprio governo federal lançou editais com R$ 3,3 bilhões em recursos para projetos que unam pesquisa e mercado, com bônus na pontuação para aqueles que incluírem propriedade intelectual e planos de transferência de tecnologia. “Quem entende esse jogo, capta recurso”, resume Anderson.

Imagem gerada por IA com dados do INPI

 

Outro ponto discutido no evento foi que, além de produtos e marcas, processos internos também podem se tornar ativos estratégicos para as empresas. A professora do Instituto Federal do Piauí e integrante do programa de pós-graduação em propriedade intelectual (Profenid), Marina Bezerra da Silva, explicou que muitas vezes o diferencial competitivo está justamente na forma como uma empresa produz, organiza ou entrega um serviço. “Às vezes, o empresário acha que inovação é só criar uma tecnologia muito complexa, mas um processo diferente, mais eficiente ou mais barato também pode ter valor e precisa ser protegido”, afirmou. Segundo ela, a falta dessa cultura faz com que muitas empresas percam oportunidades de transformar conhecimento em patrimônio econômico.

.Marina Bezerra da Silva, professora do IFPI


Selo de origem

No campo das indicações geográficas (IG), que protegem produtos típicos de um território, o Piauí também tem muito a avançar. A IG, que é coletiva e beneficia toda uma comunidade, pode valorizar queijos, artesanatos, frutas ou bebidas. O estado tem apenas dois registros concedidos: cajuína e opalas de Pedro II. O Paraná, para efeito de comparação, já soma mais de 25.

Comunidade quilombola dos Potes, em São João da Varjota (PI)  (Foto: IFPI)

 

Um projeto em andamento busca mudar esse cenário. A comunidade quilombola dos Potes, em São João da Varjota, a 290 km de Teresina, produz cerâmica manual há mais de 100 anos. Com apoio de pesquisadores do Instituto Federal do Piauí (IFPI) e recursos de editais, eles correm atrás do reconhecimento de indicação geográfica para seu artesanato. Recentemente, a comunidade conseguiu R$ 250 mil para reformar o galpão de produção e a loja.

“Se isso se concretizar, não será apenas um selo. Será a garantia de que o saber tradicional daquela comunidade será protegido e valorizado no mercado”, explicou a professora Marina, que lidera o diagnóstico. “Há um espaço enorme para profissionais que entendam de propriedade intelectual, tanto no mercado quanto na academia. O Piauí ainda tem poucas empresas que prestam esse serviço.”

O Piauí tem apenas dois registros de localização geográfica: cajuína e opalas de Pedro II (Foto: Secom)

 

O coordenador do Núcleo de Inovação e Transferência de Tecnologia (Unitec) da Ufpi, Albemerc Moura de Moraes observa que o Piauí tem um mundo de possibilidades na propriedade intelectual. “Não é apenas patente ou software. As universidades precisam trabalhar em conjunto com as secretarias, com a Fapepi, com a Fadex. O Piauí vive um momento ímpar de incentivo à inovação e ao empreendedorismo.”

Os especialistas ressaltam que a propriedade intelectual é uma ferramenta que pode gerar emprego, renda e qualidade de vida, desde que o conhecimento não fique encalhado nos laboratórios.

Albemerc Moura de Moraes, do Unitec

 

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