Há dez anos, era difícil encontrar no Piauí alguém que dissesse querer criar uma startup. O conceito ainda era pouco conhecido e o mercado local estava mais ligado a empresas de software, portais de internet e sites de notícias ou downloads. Foi nesse período que começaram as primeiras iniciativas voltadas à disseminação da cultura de startups no estado, apresentando ao público conceitos ligados à inovação, modelagem de negócios, captação de recursos e novas oportunidades do mercado digital.
Aos poucos, empreendedores passaram a enxergar naquele movimento um novo mercado em expansão e uma possibilidade real de criar empresas de tecnologia no Piauí. A transformação ainda está longe do nível de ecossistemas consolidados como Porto Digital, em Recife, ou dos hubs de Fortaleza e Salvador. Mas os números mostram que o estado vive uma mudança estrutural.

Hoje, o estado reúne hubs de inovação, editais, aceleradoras, programas públicos, polos tecnológicos, comunidades empreendedoras e uma rede cada vez mais conectada entre universidades, setor produtivo e governo. Áreas como inteligência artificial, saúde, educação, energia renovável, agronegócio, logística, automação e gestão pública passaram a concentrar parte importante dos novos negócios criados no estado.
O que são startups?
Na prática, startups são empresas criadas para crescer rapidamente a partir de soluções inovadoras para problemas reais. Diferentemente de negócios tradicionais, elas operam em ambientes de alta incerteza, testando modelos capazes de ampliar faturamento e número de clientes sem aumentar custos na mesma proporção. Embora muitas estejam ligadas ao universo digital, o conceito também alcança áreas como biotecnologia, saúde, educação, energia, logística e agronegócio.
O gestor de projetos de inovação, Samuel Medeiros, que foi gerente da Unidade de Inovação do Sebrae Piauí por 10 anos, acompanhou diretamente a formação do ecossistema piauiense. Segundo ele, o movimento começou a ganhar estrutura ainda no início da década de 2010, quando o Sebrae passou a atuar com empresas de software em Teresina. Poucos anos depois, a pauta evoluiu para startups, inovação aberta e negócios escaláveis.
Foi nesse período que chegaram ao estado metodologias modernas de modelagem de negócios, mentorias especializadas e programas voltados ao empreendedorismo tecnológico. “A gente começou a mostrar que existiam investidores, editais e possibilidades reais de criar negócios de tecnologia aqui. Isso foi mudando a percepção das pessoas”, afirma Samuel. Ele avalia que o atual momento é o mais estruturado já vivido pelo setor no estado. “Nunca tivemos tantos editais, tantos programas e tanta gente nova entrando no ecossistema como agora.”
O salto das startups no Piauí
Os dados do Startup Report Piauí 2025, elaborado pelo Sebrae, mostram que o crescimento ganhou velocidade nos últimos anos. Em 2015, o estado registrava apenas cinco novas startups fundadas naquele ano. O número sobe para 17 em 2019, 26 em 2020, 30 em 2021 e 49 em 2022.
O salto mais expressivo acontece a partir de 2023, quando o Governo do Estado lança o Programa Startup Piauí, iniciativa pública voltada ao fortalecimento do empreendedorismo inovador. Naquele ano, o número de novas startups abertas dispara para 128. Em 2024, o estado registra o maior pico da série histórica: 281 novas startups criadas em apenas um ano.

Os dados de 2025 mostram uma desaceleração no ritmo de abertura, com 54 novas startups registradas até o momento do levantamento. Especialistas do setor avaliam, porém, que o movimento acompanha tendências nacionais e internacionais, marcadas por juros elevados, maior seletividade de investidores e redução global na oferta de capital de risco.
Ainda assim, o crescimento acumulado transformou o ambiente de inovação do estado. Hoje, o Piauí possui 681 startups cadastradas na plataforma nacional do Sebrae, sendo o 12º do País em número de empresas do segmento. Desse total, 423 estão em Teresina, consolidando a capital como principal polo tecnológico local e a décima capital do Brasil em quantidade de startups. Mas o movimento começa a se espalhar rapidamente pelo interior: Parnaíba já reúne 80 startups mapeadas; Picos, 38; Floriano, 13; e Bom Jesus, 11.
Além de quantidade, o ecossistema começa a mostrar diversidade e sofisticação. As startups piauienses atuam principalmente nos segmentos de Saúde e Bem-Estar (16,1%), Tecnologia da Informação (15,5%) e Educação (13,1%). Também existem empresas ligadas ao agronegócio, impacto socioambiental, varejo, logística, energia, automação e gestão pública.

O estado ainda ocupa posição de destaque nacional em um segmento considerado estratégico: as GovTechs, startups que desenvolvem soluções para governos e serviços públicos. Hoje, o Piauí aparece na quarta posição nacional em número desse tipo de empresa, mostrando maturidade na conexão entre inovação e administração pública.
O amadurecimento do ecossistema
Os dados de maturidade das startups mostram um ambiente ainda jovem, mas em clara evolução. Cerca de 16,2% das startups piauienses já estão na fase de Tração, estágio em que as empresas conseguem validar seus modelos de negócio, conquistar clientes recorrentes e encontrar o chamado “product-market fit”, quando uma solução encontra demanda consistente e capacidade real de expansão.
Outras 6,2% já alcançaram a fase de Crescimento, momento em que as startups passam a estruturar expansão comercial, ampliar equipes, ganhar escala operacional e consolidar novas fontes de receita. No Piauí, 1,3% das empresas já está na etapa de Escala, considerada a mais avançada do empreendedorismo inovador. Ao mesmo tempo, a forte presença de startups nas fases iniciais mostra que o ecossistema continua renovando sua base empreendedora. Hoje, 76,4% das startups piauienses estão nos estágios de Ideação e Validação.

Sobre os dados de faturamento, cerca de 19,1% das startups vendem entre R$ 81 mil e R$ 360 mil por ano, enquanto 4,1% das empresas registram faturamento anual entre R$ 360 mil e R$ 4,8 milhões. Dados do Sebrae apontam ainda que startups apoiadas por programas de aceleração aumentaram o faturamento em 57% em apenas um ano, enquanto 87% dos empreendedores afirmam que as iniciativas tiveram impacto direto no crescimento dos negócios.
Outro número que chama atenção é o perfil tecnológico dessas empresas. Inteligência artificial e APIs, tecnologias que permitem conexão automática entre diferentes plataformas, já aparecem entre as ferramentas mais utilizadas pelas startups piauienses. O software se consolidou como principal produto ofertado por 46,2% das empresas, enquanto o modelo de negócio predominante é o B2B, quando empresas vendem soluções para outras empresas. A maioria também aposta em modelos de assinatura recorrente, conhecidos como SaaS, estratégia utilizada por cerca de 39% das startups locais.
Comunidades de startup impulsionam o ecossistema
O avanço do ecossistema piauiense também começou a ser impulsionado por comunidades de inovação espalhadas pelo estado. Em vez de atuar apenas de forma isolada, startups passaram a se conectar em grupos organizados que promovem eventos, mentorias, meetups, rodas de conversa e trocas de experiências entre empreendedores.
Além de Teresina, cidades como Parnaíba, Picos, Floriano e Bom Jesus já possuem comunidades ativas ligadas ao empreendedorismo inovador, como Carnaúba Valley, Vale do Mel, Cais Valley e Gurgueia Valley. Há ainda grupos especializados em segmentos específicos, como o Piauí Indie, voltado ao setor de games.
Segundo Andreia Cavalcante, gestora de Projetos de Inovação do Sebrae Piauí, startups mais conectadas às comunidades costumam apresentar melhor desempenho em programas de aceleração, editais e projetos de subvenção econômica. “A gente percebe que as startups mais presentes no ecossistema conseguem avançar mais rápido. Essa troca de experiências, de quem já participou de editais, missões e processos de aceleração, acaba impactando diretamente o amadurecimento desses negócios”, afirma.
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Quando inovação virou política pública
A expansão do ecossistema veio acompanhada de uma mudança importante no volume de investimentos públicos em inovação. Nos últimos anos, programas como Startup Nordeste, Startup Piauí, Centelha e iniciativas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (Fapepi) passaram a distribuir bolsas, mentorias, aceleração e recursos para startups em diferentes estágios de desenvolvimento.
Há poucos anos, os editais de inovação no estado ainda operavam com aportes relativamente modestos. Na primeira edição do Programa Centelha no Piauí, por exemplo, o investimento foi de cerca de R$ 2,6 milhões. Na segunda edição, o valor praticamente dobrou, chegando a R$ 5,2 milhões. Já em 2025, o Centelha 3 alcançou o maior aporte da história do programa no estado, com previsão de R$ 6,11 milhões destinados a startups e empreendedores inovadores.
O Startup Nordeste também ampliou significativamente sua atuação no estado. Apenas na edição mais recente, o programa destinou R$ 3,9 milhões ao Piauí para ações de pré-aceleração, mentorias, bolsas e apoio ao desenvolvimento de startups. O estado recebeu o maior número de vagas da iniciativa em toda a Região Nordeste.
Mais do que ampliar recursos financeiros, os programas ajudaram a criar uma estrutura mais permanente de apoio ao empreendedorismo inovador, aproximando universidades, investidores, aceleradoras, governo e setor produtivo.
O fortalecimento do ecossistema local também passou pela realização de grandes eventos voltados à tecnologia, empreendedorismo e economia digital. Nos últimos anos, Teresina sediou o Nordeste On (NEON), principal evento de inovação do Sebrae no Nordeste, e Campus Party Weekend, uma das maiores experiências de tecnologia, criatividade e cultura digital do mundo.
Dentro desses e de outros eventos de inovação realizados no Piauúi, também é comum acontecer competições com a Batalha das Startups, onde os fundadores fazem apresentações rápidas (chamadas pitchs) para empresários e investidores, com o objetivo de convencê-los a investir em suas startups. Na maioria dos casos, há, além do investimento, premiações. No NEON e Campus Party de 2025, mais de 30 startups locais foram selecionadas para participar do maior evento de inovação do mundo, o Web Summit Lisboa 2025.
Os eventos ajudaram a aproximar estudantes, startups, investidores, pesquisadores, empresas e instituições públicas, criando um ambiente mais conectado ao debate nacional sobre inovação. Além da programação técnica, os encontros passaram a funcionar como vitrines para startups piauienses e espaços de networking entre empreendedores locais e representantes de grandes empresas e fundos de investimento.
A realização dessas iniciativas no estado também contribuiu para ampliar a visibilidade do Piauí dentro do cenário brasileiro de tecnologia, reforçando a percepção de que o ecossistema local começou a ganhar escala, articulação institucional e capacidade de atrair discussões antes concentradas nos grandes polos do Sudeste e do Nordeste.
O começo de tudo
Mas o atual cenário começou muito antes dos editais, hubs e programas de aceleração. Parte importante dessa história nasceu em Parnaíba. Foi ali, em 2015, que surgiu o Delta TICs, considerado o primeiro polo tecnológico estruturado do estado.
O movimento foi liderado pelo professor Gildário Lima, da Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPAR), ao lado do professor Rodrigo Baluz, com apoio do Sebrae, universidades e da gestão municipal da época. “O ecossistema era muito pequeno. Existiam iniciativas isoladas, mas faltava conexão”, lembra Gildário.
Doutor em Física, ele voltou ao Piauí após experiências no Rio de Janeiro trazendo uma visão mais próxima da inovação aplicada e do empreendedorismo acadêmico. Ao chegar em Parnaíba, encontrou um cenário ainda embrionário, mas percebeu potencial humano e acadêmico para algo maior.
Foi a partir daquele movimento inicial que começaram a surgir fóruns, hackathons, comunidades de tecnologia e organizações voltadas à inovação. Entre elas, a Cajuína Tech, apontada por Gildário como a primeira organização não governamental de tecnologia criada no estado. “Ali abriu-se uma caixa de Pandora no bom sentido. Muitas iniciativas nasceram daquele movimento”, afirma.
Segundo ele, a principal transformação talvez nem esteja apenas no número de startups criadas, mas na mudança cultural em torno da tecnologia e do empreendedorismo. “Há dez anos os cursos mais disputados eram quase exclusivamente ligados à saúde. Hoje você vê famílias incentivando filhos a cursarem Ciência da Computação, Engenharia de Software e Inteligência Artificial.”
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Os dados da Universidade Federal do Piauí ajudam a explicar essa mudança. No Sisu 2017.2, com base nas notas do Enem 2016, cursos como Enfermagem, Nutrição e Educação Física registravam algumas das maiores relações candidato/vaga da universidade, com índices de 68,1, 60,7 e 63,9 candidatos por vaga, respectivamente. Medicina, em Picos, ultrapassava 151 candidatos por vaga.
Uma década depois, embora Medicina continue liderando a disputa, os cursos ligados à tecnologia passaram a ocupar posição de destaque no desempenho acadêmico dos candidatos. Dados recentes da UFPI mostram que Ciência da Computação, em Teresina, alcançou nota de corte de 756,98 pontos no Sisu 2026, registrando a terceira maior nota da universidade, atrás apenas dos cursos de Medicina. O desempenho colocou o curso à frente de graduações historicamente muito concorridas, como Direito Integral, Odontologia e Arquitetura e Urbanismo.
O Piauí aposta em inteligência artificial
A mudança de mentalidade também aparece no avanço da inteligência artificial dentro das escolas e universidades do estado. O Piauí tornou-se o primeiro estado das Américas a incluir a IA como disciplina obrigatória na rede pública estadual, alcançando mais de 120 mil estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental ao Ensino Médio.
O programa trabalha conceitos ligados ao uso ético da tecnologia e incentiva alunos a desenvolver soluções práticas voltadas às próprias comunidades. A iniciativa recebeu reconhecimento internacional após vencer o Prêmio Rei Hamad Bin Isa Al-Khalifa, concedido pela UNESCO.
Ao mesmo tempo, cresce a oferta de cursos ligados à nova economia digital. A Universidade Federal do Piauí anunciou recentemente a criação da graduação em Inteligência Artificial, com início previsto para 2026.2 e oferta inicial de 36 vagas.
A UFPI também passou a ampliar iniciativas voltadas à aproximação entre universidade e mercado, com programas ligados à inovação, empreendedorismo acadêmico, cultura maker e hubs tecnológicos. A proposta é estimular que pesquisas e projetos desenvolvidos dentro da universidade avancem para soluções aplicadas e novos negócios de base tecnológica.
Outras instituições públicas e privadas também passaram a ampliar graduações e especializações em Ciência de Dados, Engenharia de Software, Computação em Nuvem e Segurança Digital. “Isso mostra que a mentalidade mudou. Antes o jovem buscava principalmente estabilidade. Hoje ele também pensa em criar soluções e empreender”, resume Gildário.
O modelo do MIT adaptado ao Piauí
A profissionalização do ecossistema ganhou força nos últimos anos com programas estruturados de aceleração criados pela Investe Piauí, empresa de atração de investimentos do Governo do Estado. Entre eles, o Startup Piauí passou a ocupar posição central na formação de novos negócios de base tecnológica no estado. A iniciativa é inspirada nos “24 Passos do Empreendedorismo Disciplinado”, metodologia criada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma das universidades mais reconhecidas do mundo em inovação e empreendedorismo.
O programa trabalha conceitos como validação de mercado, identificação de clientes, modelagem de negócios, testes de solução e escalabilidade. A metodologia ficou conhecida internacionalmente por priorizar execução prática em vez de apenas teoria, aproximando startups do mercado desde as fases iniciais de desenvolvimento.
Desde sua criação, o programa já reuniu centenas de projetos e ajudou a movimentar mais de R$ 124 milhões em faturamento entre startups participantes. Para Heygler de Paula, coordenador da iniciativa, o principal avanço foi criar um ambiente mais integrado entre os diferentes atores do ecossistema. “Antes existia talento, mas faltava ambiente. Hoje começamos a criar um ecossistema onde universidade, empreendedor, investidor e governo conseguem dialogar.”
O desafio agora é chegar a mais cidades
Apesar dos avanços, os entrevistados também apontam desafios importantes. Joselé Martins, um dos criadores da comunidade Cajuína Valley e participante dos primeiros movimentos ligados à tecnologia em Teresina, avalia que o ecossistema amadureceu, mas ainda precisa ampliar sua base. “Hoje existe muito mais dinheiro, mais programas e mais visibilidade. Mas ainda precisamos levar inovação para mais jovens, mais escolas e mais cidades.”
André Alencar, criador do antigo Zig Downloads, um dos maiores sites de downloads do Brasil nos anos 2000, também vê uma evolução clara em relação ao passado, mas acredita que o estado ainda precisa estimular negócios mais ousados e escaláveis. “O Piauí melhorou muito. Antes praticamente não existia ecossistema. Hoje existe uma infraestrutura mínima de inovação. Precisamos criar soluções menos repetitivas e mais inovadoras.”
Para ele, a inteligência artificial pode acelerar ainda mais essa transformação ao reduzir drasticamente a barreira técnica para criação de novos negócios. “Hoje uma pessoa consegue validar uma ideia praticamente sozinha. Isso muda completamente o jogo.”
Talvez seja justamente esse o ponto mais importante dessa transformação: o Piauí começa a deixar de ser apenas consumidor de inovação produzida em outros lugares para construir, ainda que aos poucos, sua própria economia digital. Uma economia que nasceu em pequenos grupos de professores, programadores e empreendedores reunidos em Parnaíba e Teresina e que agora tenta ocupar espaço em um dos mercados mais estratégicos da economia mundial.
A startup piauiense que levou robótica às escolas
Um dos exemplos mais simbólicos dessa transformação talvez seja a própria trajetória de Gildário Lima. Ele se tornou empreendedor e fundador da TRON Robótica Educativa, startup criada em Parnaíba que hoje atua em diferentes regiões do Brasil desenvolvendo soluções em educação tecnológica.
A empresa nasceu com foco em robótica educacional, em um momento em que o tema ainda era pouco discutido nas escolas piauienses. A proposta era utilizar tecnologia, pensamento computacional e cultura maker como ferramentas de aprendizagem, aproximando crianças e jovens de áreas como programação, engenharia, automação e resolução de problemas.
Com o tempo, a startup desenvolveu metodologia própria de ensino, alinhada à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e passou a atuar tanto em escolas públicas quanto privadas. Hoje, a TRON reúne kits próprios de robótica, materiais pedagógicos autorais, feiras tecnológicas e formação continuada de professores. O modelo começou no litoral do Piauí, mas passou a alcançar outros estados, mostrando que negócios de base tecnológica criados fora dos grandes centros também poderiam ganhar escala nacional.
A empresa também ampliou sua atuação para além da educação. Entre os projetos desenvolvidos estão a tecnologia MR, que transforma estímulos sonoros em vibrações táteis para pessoas surdas ou com deficiência auditiva; a Bee Box, colmeia produzida em impressora 3D voltada à preservação de abelhas sem ferrão; e a Smart Boxing, luva inteligente idealizada em parceria com Whindersson Nunes para monitoramento esportivo por sensores e aplicativo próprio.
Tecnologia aplicada ao setor de energia
Outro exemplo dessa nova fase do ecossistema piauiense é a trajetória do engenheiro eletricista Maicon Alisson, fundador da LIPOR, startup criada para automatizar projetos de energia solar. A empresa nasceu a partir de um problema real vivido pelo próprio empreendedor dentro do mercado de energia fotovoltaica, setor em que atua há quase uma década.
Durante a operação de sua empresa de energia solar em Teresina, Maicon percebeu que boa parte do tempo da equipe era consumida na elaboração manual de projetos técnicos. Segundo ele, cada projeto residencial levava cerca de quatro horas para ser concluído, utilizando softwares como AutoCAD, planilhas e processos repetitivos sujeitos a erros e retrabalho. Em um mercado cada vez mais competitivo, isso passou a comprometer produtividade e margem operacional.
A partir dessa dificuldade surgiu a ideia de criar uma plataforma capaz de automatizar o processo. Inicialmente desenvolvida dentro do Excel, a solução evoluiu até se transformar em um software em nuvem voltado para empresas integradoras de energia solar. Hoje, a plataforma permite elaborar projetos em cerca de 15 minutos, inclusive pelo celular, além de atualizar automaticamente normas técnicas e exigências regulatórias do setor elétrico.
A startup passou então a atender outras empresas do setor, que utilizam a ferramenta para acelerar projetos e reduzir falhas técnicas. Segundo Maicon, a IPO já possui clientes em estados como Alagoas, Pará, Maranhão, Sergipe e Goiás, atendendo desde pequenos escritórios até empresas que realizam dezenas de projetos por mês.
O empreendedor afirma que a entrada no programa Startup Piauí ajudou a profissionalizar a empresa e estruturar melhor o negócio. “A gente já tinha a ideia e a tecnologia, mas precisava organizar a empresa. O acompanhamento ajudou desde a estrutura societária até a visão de mercado”, relata. Hoje, a startup mantém equipe distribuída entre diferentes estados e concentra no Piauí áreas como comercial, gestão e operação administrativa.
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